De volta ao Maraca

Este fim de semana retornei ao Maracanã depois de mais de 25 anos para assistir a vitória do Flamengo sobre o Sport Recife. Situação em que fui tomado por sentimento nostálgico, pois fui assíduo freqüentador do estádio em minha adolescência, prática que a preguiça e a mudança de interesses me fizeram abandonar. Neste período o estádio foi reformado, em tentativa de adequá-lo às normas de segurança (João Havelange teria sugerido que o implodisse). O estádio, que foi construído para receber 150 mil pessoas, reduziu sua capacidade para 80. A arquibancada foi subdividida em setores e ganhou cadeiras cujas cores permitem a identificação das áreas com preços variáveis e, a geral foi eliminada. Quando não havia cadeiras sentava-se em degraus de cimento e, a concentração de pessoas começava em frente ao meio do campo e ia se espalhando para as laterais até chegar no fundo do gol. Era um espaço liso, com áreas definidas pelas torcidas e suas diversas facções. No caso de brigas entre as torcidas, algo que era freqüente, abria-se rapidamente um grande vão graças a.facilidade de deslocamento, o que, obviamente, favorecia tanto a fuga como o conflito.
A nova configuração estanca o movimento e o ímpeto das pessoas. Mas não foi só isso que deixou o povo mais manso. O futebol é hoje um espetáculo televisivo. Os jogadores comemoram o gol correndo em direção à câmera e não à sua torcida. Do mesmo modo os torcedores se comunicam com a telinha e temem serem flagrados. Isso levou aos jogos no Maracanã mais mulheres e famílias.
Por sua vez, a organização do estádio não poderia deixar de faturar com a necessidade das pessoas de tornar publica a sua intimidade. No telão do estádio são veiculadas diversas mensagens de amor envidas pelos celulares presentes, assim como autofotos no local. Não se fala sobre futebol, isso só em mensagens ao Galvão Bueno.
Do lado de fora a bagunça de sempre, mas o metrô facilita muito a chegada ao estádio. O melhor de tudo são os camelôs. É verdade que eles ocupam as calçadas privatizando o espaço público e pereré pão duro, mas eles têm sempre a mão o necessário à ocasião. A coisa certa, na hora certa, não importa como o Universo conspira. Desprevenido que eu estava da chuva pude comprar por cinco reais uma capa embalada num pacote menor que uma carteira.

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