17
Oct 08

Machado de Assis e a questão do Livro


A imagem de Machado de Assis esteve, no mês de setembro, nas capas de algumas das principais revistas do país e, em posição tão destacada nas bancas quanto as meninas da hora.
No Brasil passamos, impreterivelmente, nas escolas por alguns dos seus livros. O que faz o escritor merecer a mesma popularidade de nossas voluptuosas meninas. Machado de Assis problematizou como poucos a escrita e o livro.
O romance Memórias póstumas de Brás Cubas (1881) de Machado de Assis, retrata o ambiente de ócio e sadismo que prevalece junto a elite escravocrata do século XIX. Filho desta elite Brás Cubas é uma espécie de flaneur recriminado por levar vida mundana, não se casar e não se fazer político como quer o pai. A mentira dos valores sociais vigentes é revelada pelo próprio pai; “Olha que os homens valem por diferentes modos, e que o mais seguro de todos é valer pela opinião dos outros homens”.
Machado de Assis chama a todo tempo o leitor à materialidade da inscrição despertando-o de sua relação intensa com a trama. Põe em questão o livro como totalidade, do mesmo modo em que o revela como dispositivo. O autor conjuga, na construção do texto, elementos verbais e visuais e, interrompe freqüentemente o fluxo do texto para interpelar o leitor e convocá-lo a observar as questões do livro em processo. A partir de acidentes gráficos e apartes interrompe-se o desenrolar sucessivo de sentido revelando-se a opacidade da superfície do texto e as estratégias e dúvidas na concepção do livro. No capítulo XLIX, Machado parece ironizar diretamente os ideais de transparência do dispositivo:
“Nariz, consciência sem remorsos (…) Sabe o leitor que o faquir gasta longas horas a olhar para a ponta do nariz, com o fim único de ver a luz celeste. Quando ele finca os olhos na ponta do nariz, perde o sentimento das cousas externas, embeleza-se no invisível, apreende o impalpável, desvincula-se da terra, dissolve-se, eteriza-se. ”
Machado impõe ao leitor a consciência de que tem em mãos um livro. Ele desconstrói o caráter ao mesmo tempo reflexo e cristalino conquistado pela tipografia clássica nos quais as alternâncias de contraste entre o preto e o branco matizam e engolfam o leitor pelas luminescências e o colocam num espaço virtual quase metafísico, em estado de suspensão. O escritor abandona preceitos que sustentam a fluidez da leitura e rompe com as regras clássicas da arte de escrever que se apresentavam puramente a serviço do conteúdo.
Por outro lado, suas interrupções na narrativa se apresentam como estratégia para manter o texto vinculado a idealidade do significado, ou seja, quer o autor que a comunicação escrita, fixada em um suporte material, não fuja ao seu controle. Atua, para tanto, com eventuais “explicações” e se previne inclusive das incompreensões do crítico, como é o caso do capítulo CXXXVIII intitulado A um crítico.  Sob esta ótica pode-se dizer que Machado de Assis compactua com as preocupações expostas por Platão em Fedro no qual tece críticas à escrita por seu caráter de perenidade e de exterioridade. O melhor, afirmara Platão, seria ensinar e aprender oralmente, através do diálogo, podendo o mestre escolher o seu discípulo e estar presente com condições de controlar e esclarecer os seus discursos e promover a verdade nas almas. Machado, no entanto, vem exercer a vigília sobre o significado do exposto, compondo o diálogo não pela oralidade, mas pela descrição da leitura e pela materialidade do traço.
Os cortes na seqüência, põem em causa o lugar do capítulo no todo. Haroldo de Campos afirmou, num jogo de palavras, que o principal personagem de Dom Casmurro não é a Capitu é o Capítulo (1992:224). Desta questão Abel Baptista (1998) lança ampla investigação sobre como Machado de Assis coloca em questão, de modo recorrente, a noção de totalidade intrínseca ao livro. Em Machado o livro ganha caráter de prosa capitular. Memórias Póstumas tem cento e sessenta capítulos em cerca de duzentas páginas. O capítulo protagonista em Machado coloca a tensão entre os capítulos isolados e o todo, pondo em causa a idéia de linearidade, o que, segundo, Baptista, não sublinha propriamente o fragmentário, pois a idéia de totalidade permanece presente, mas sublinha a interrupção. Com freqüência Machado assiná-la a possibilidade de suprimir um capítulo, retoma outro diante da possibilidade do leitor tê-lo pulado, enfim por suspensões e interrupções destina ao leitor as possibilidades de compor o livro, mas sob a articulação e argumentação do autor.


14
Feb 08

Cartografia III

Lima Barreto, num conto intitulado “Como o ‘homem’ chegou” em cuja epígrafe transcreve a singela frase de Nietzsche “Deus está morto; a sua piedade pelos homens matou-o”, relata a prisão de um louco pacato, “lá dos confins de Manaus, que tinha a mania da Astronomia e abandonara, não de todo, mas quase totalmente, a terra pelo céu inacessível.” A prisão se deu para dar destino aos regulamentos policiais que “não encontravam emprego” em uma delegacia de “movimento desusado” em “circunscrição” por demais pacata e ordeira.

Quando o delegado, sediado no Rio de Janeiro, recebeu as ordens para que fosse buscá-lo, argumentou que era muito longe. A isto o inspetor retrucou que já se havia verificado a distância no mapa “e era bem reduzida: obra de palmo e meio.” E, assim foi, em distância medida por palmo e polegadas, o carro-forte puxado por um burro “abalando o calçamento, a chocalhar ferragens, a trovejar pelas ruas afora em busca de um inofensivo.” No carro-forte ia, além do cocheiro, um certo doutor Barrado esforçado “por parecer inteligente”, dando a tudo caráter científico.

No fim de quatro anos e doze polegadas da cartografia que se desdobraram em um infinito número de quilômetros, “o carrião entrou pelo Rio adentro, a roncar pelas calçadas, chocalhando duramente as ferragens, com o seu manco e compassivo burro a manquejar-lhe à sirga”. Do ‘Homem’, que não fora no trajeto alimentado, pois os agentes não tinham com segurança uma norma de proceder, chegou o esqueleto.

A instituição cumpriu assim, religiosamente, a fria letra da lei. Do mesmo modo que comprrendeu o mundo codificado pela cartografia.