
Uma especulação sem dados: não tem muito tempo Luiz Paulo Conde quando era prefeito da cidade do Rio de Janeiro, tomou a iniciativa, com o pretexto de zelar pela boa imagem da cidade, de eliminar certas concentrações de pessoas que considerava indesejadas. Ele queria nos fazer crer que todos os casos deveriam ser resolvidos democraticamente com o uso da lei, sem imposição da força policial.
Em um dos casos, grupos de Pitboys reuniam-se freqüentemente à noite nos finais de semana em frente às lojas de conveniência nos postos de gasolina. Os grupos ali se encontravam e se preparavam para a noite exibindo seus corpos sob a intensa e difusa luz fria, enquanto consumiam um coquetel de energizante, cerveja e gasolina.
A medida de dissolução? Quebra de consistência – a retirada de um dos elementos da composição. O legalmente viável? A proibição de venda de cerveja em postos de gasolina. O argumento ao público? Incompatibilidade entre os elementos álcool e direção. O imperativo publicitário? Se beber não dirija, se dirigir não beba.
A medida mostrou-se (relativamente) eficiente até a primeira liminar.
Rogério Camara, São Luís, MA, 2001
Costumam chamar isto de “Design Vernacular”.
Apelando para o Aurélio:
“Vernáculo: (…) Adj. 1. Próprio da região em que está: nacional: (…) 2. Fig. Diz-se da linguagem genuína, correta, pura, isenta de estrangeirismos; castiço.”
Faz sentido!
Atraindo voyeuristicamente o passante, os objetos expostos na vitrine são desfrutados a distância, perversamente.
As vitrines são um dos elementos de maior poder de sedução no espaço urbano. O produto ali exposto surge num espaço virtual quase metafísico, que os deixa em posição intermediária, nem dentro da loja nem na rua. Entre o objeto e a rua uma parede invisível, o vidro. Translúcido, como fosse uma barreira de ar congelado, o vidro permite ver o objeto, mas não tocá-lo. A vitrine fascina e seduz. Castrados pela impossibilidade momentânea de efetivar a posse, dá-se o impasse descrito em nota por Marcel Duchamp.
“A questão das vitrines. Submeter-se à interrogação das vitrines. A exigência das vitrines. A prova da vitrine da existência do mundo exterior. Quando alguém se submete ao exame da vitrine, este alguém pronuncia também sua própria sentença. De fato, a escolha desse alguém é uma viagem de ida e volta. Das exigências da vitrine, da inevitável resposta às vitrines, minha escolha é determinada. Nenhuma teimosia, ab absurdo, em esconder o coito através do painel de vidro com um ou vários objetos da vitrine. A pena consiste em cortar o painel e sentir remorso tão logo a possessão é consumada.”
À vitrine, como à publicidade, só interessa quando se age num primeiro impulso, sem que os anseios sejam saciados. Procura-se, como estratégia, manter-se sempre o desejo de consumo e a frustração.
Em caso comum, a frente da loja é ocupada na maior parte pela vitrine e a entrada é mantida fechada por uma porta de vidro. Evita-se que a parte interna da loja fique devassada, a barreira é proposital e espera ser rompida. Com a luz do dia a arquitetura e o movimento da rua refletem sobre o vidro, que parece engolfar o espaço. Deslocando-se diante da vitrine tem-se a sensação que o objeto também se move ocupando planos diferentes. À noite, com pouca luz, tem-se a pupila dilatada e conseqüentemente a visão das coisas desfocada. A vitrine iluminada possibilita recuperar o foco justamente ao se olhar o objeto exposto, que nítido, ganha aura.
No poema “Vitrina” Guilherme de Almeida escreveu:
A mocinha parou um instante
Junto do alto cristal da vitrina
Namorando um “soutien” fascinante
E umas pernas de seda franzina.
E não viu o automóvel brilhante
Que dobrou silencioso uma esquina
E parou atrás dela um instante.
Nem ouviu o que disse a buzina
Namorando um “soutien” fascinante
E umas pernas de seda franzina
Enguiçados e extáticos diante
Daquele alto cristal de vitrina.