Da caligrafia: ocidente/oriente

Rogério Camara, 2002

A invenção da imprensa não faria desaparecer a caligrafia. Ao contrário, a imprensa favoreceria o aprendizado da escrita e da leitura. O homem letrado deveria apresentar uma caligrafia de traços firmes e elegantes. Isto é causa já discutida. Mas, pelo que sugere a imagem acima, a necessidade da bela escrita não foi abandonada no mundo das imagens calculadas. Aproveito a deixa, não para justificar o proposto no lambe-lambe (que concorra ao curso quem quiser), extraído nas ruas de Vitória-ES, mas para divagar sobre o caráter visual de nossa escrita face ao oriente.

A escrita alfabética por suas características solicita a manutenção da linha durante uma seqüência de gestos até corporificar a palavra. A permanência do contato da pena sobre o papel força a estreita proximidade entre a mão, o instrumento e o suporte. Apóia-se sobre o papel. Cola-se o olho no trilho. A atenção ao espaço gráfico cede à concentração dedicada ao curso da linha. Temporalização.

No Oriente manteve-se, desde os primórdios, o uso do pincel e de outros instrumentos naturais de escrita. O calígrafo oriental, aos modos da pintura, busca a plasticidade mais pura e a relação espacial dos elementos e, diferente da pintura, a marca de cada gesto é definitiva e não pode ser velada. O domínio do pincel inicia-se no aprendizado da escrita, antes do seu uso na pintura. Os movimentos dos traços são entrecruzados e não contínuos. Na escrita oriental, cada ideograma evidencia-se como uma totalidade relativa, figurando-se no espaço. Com isso, no Oriente a caligrafia ultrapassa os limites da escrita, pois liberta o signo do sentido preciso do contexto verbal, tornando-o impreciso, equívoco, plástico. Ao final aprecia-se a composição dos elementos e as ocorrências de casualidades. Espacialização e configuração.

No Ocidente abandonou-se o pincel e outras ferramentas primárias à procura de instrumentos que possibilitassem traços mais precisos e padronizados, favorecendo a legibilidade. Os modelos que inspiram o manuscrito são as gravações em pedras. O estilete, o estilo. A rigidez do cálamo e da pena convém à formação do caractere retilíneo e esquemático. O talhe da pena é determinante na conquista do valor construtivo e consciente do desenho.

Tags: , ,

4 comments

  1. Ok, eu sei que o cartaz acima não é o foco desse post, mas a pergunta que não quer calar é: Por que alguém usa tipografia num cartaz de um curso de caligrafia? O cara perdeu uma grande oportunidade de mostrar as implicações práticas do que se aprende no curso.

  2. rogério camara

    Pois é Ricardo,
    O que nos espera disso. Também é curiosa sua veiculação, ocorre do mesmo modo das cartomantes: o lugar, a face gráfica e o intento (salvar nossas vidas). Se acreditarmos nisso você já está meio salvo, só lhe faltam as cartas. Eu já sigo o desígnio do inferno : )

  3. Rogério, esse seu post me fez lembrar de imagens belas que vi sobre um concurso de “caligrafia” em Tóquio.

    Veja só que beleza:
    imagem 1
    imagem 2

  4. rogério camara

    Legais estas imagens Mauro,
    Isso me lembra o filme “Hero”. Nele o herói diz que, para lutar com o inimigo, deverá antes conhecer a sua caligrafia, ou seja, a particularidade de seu gesto. A partir daí, ele vai encontrá-lo numa academia de caligrafia, lá observa atentamente seus gestos caligráficos antes da luta. No oriente, por se destacar a visualidade da escrita (ou melhor da língua gráfica), se distingue o caráter individual. Por aqui, em busca da legibilidade e da transparência tentou-se chegar a uma forma regular de escrita. Bom, isto me inspira a postar outra coisa a respeito.

Leave a Reply

Your email address will not be published.